quarta-feira, 6 de julho de 2011

Portugal tem orelhas de burro

Quando eu era pequenino havia uma história de um Príncipe que tinha orelhas de burro. Mas como era princípe e havia um dia de ser rei, não se podia saber. Não conta a história o que fizeram à parteira, mas diz-nos o cronista que o menino nunca cortava o cabelo. Até que aos 6 anos de idade, a raínha sua mãe fartou-se e disse ao rei que tratasse de arranjar um cabeleireiro mudo, para não poder contar o segredo a ninguém. E assim foi até aos 12 anos, altura em que esse cabeleireiro morreu. No dia aprazado, apresentou-se o filho do cabeleireiro, a tagarelar pelos cotovelos. Os reis ficaram aterrorizados! Sua majestade chamou o cabeleireiro à ante-câmara da sala do trono, um sítio tão secreto onde nem a raínha entrava e disse-lhe:
- Vais cortar o cabelo ao princípe Jerico. Vais reparar que o princípe Jerico tem um defeito de nascença que muito o desfeia. Mas vais esquecer logo esse defeito, sob pena de te acontecerem as piores coisas que podem acontecer a um cabeleireiro.
Mais uma vez, o cronista não adianta se terão sido revelados ao cabeleireiro, os detalhes da sorte da parteira. Mas adiante que isso já é a má língua a falar.
O cabeleireio lá se dedicou à sua função e no final foi novamente chamado à ante-câmara da sala do trono onde o rei lhe perguntou:
- Então cabeleireiro, reparaste em algo notável no príncipe?
O homem estava alerta e respondeu de imediato:
- Sim, sua majestade, reparei que o príncipe Asno é uma criança muito formoso e em tudo perfeita.
Sua majestade sorriu, estendeu-lhe um saco de moedas e recomendou-lhe novamante a máxima discreção.
E isto passou-se ano após ano, sempre sem o pobre cabeleireiro contar a alguém fosse o que fosse. Um dia, não podendo mais, foi até a uma zona industrial arruinada, descobriu um armazém deserto e gritou a plenos pulmões:
- O PRINCÍPE TEM ORELHAS DE BURRO.
Aliviado por ter dito o segredo em voz alta, ao menos uma vez na vida, virou costas e fugiu a sete pés. Nem reparou no pequeno letreiro vermelho que dizia "NO AR", nem reparou que em duas minúsculas cadeiras estavam sentadas uma famosa locutora de televisão e... o príncipe em pessoa. A locutora bem tentou disfarçar, mas o pessoal da produção não tinha percebido bem o que o cabeleireiro disse e comentava:
- Ele disse que o princípe tem ovelhas e burros?
- Nada disso, ele disse que o principe tem telhas de tijolo burro.
- Por fim, o assistente de som, o mais novo de entre eles, disse alto e com boa dicção:
- O príncipe tem orelhas de burro.
Começaram então a reparar nas voltas estranhas que o cabelo do príncipe tinha, nos tufos despropositados que tinham atribuído ao uso de gel e foram discutindo os pormenores até ao intervalo.
A seguir ao intervalo, a arqui-famosa locutora não se conteve e perguntou com a frontalidade nortenha que a tornou tão conhecida:
- Dizem-me as agências de rating que sua Alteza Real tem orelhas de burro. É verdade?
O resto da história é bem conhecido. Que sim que tinha orelhas de burro, mas que ia tomar três medidas por dia para ter orelhas humanos, que tinha uma grande potencial para desenvolver orelhas humanas, que todos os dias cortava um bocadinho das orelhas para se irem parecendo mais e mais com orelhas humanas, que o senhor seu pai tinha feito mais escolas de médicos de orelhas que havia em todos os países da europa juntos.
Com a sagacidade que a caracteriza, a locutora conclui:
- Sua Alteza real está a dizer-me que temos mais médicos de orelhas desempregados que em todo o resto do europa...
- De forma alguma, Sua Majestade meu pai, tem diversos planos em apreciação para dar boa utilização a recursos tão valiosos..
- Mas enquanto isso estão desempregados e nem servem para tecelões ou alfaiates.
Fazendo juz à tenacidade que a tornou famosa, a locutora insistiu:
- Sua Alteza Real: tem ou não orelhas de burro?

Esta é a dura verdade. O príncipe tinha mesmo orelhas de burro.

E Portugal também tem orelhas de burro. E não é por culpa das agências de rating. Então é por culpa de quem? Do governo? Mas qual governo? Do que esteve, do que entrou, do que vai vir no futuro quando ainda estiver tudo na mesma, a menos que esteja ainda pior?

Deixo duas alternativas, que de facto são uma só. A culpa é dos portugueses que não souberam adaptar-se à globalização - também conhecida por integração europeia.

Claro que há aqui muita culpa da Europa e os pais da Europa (valha-me S. Jean Monet) devem estar a dar voltas no túmulo. Se a Europa não decidir resolver o problema que criou, os gregos vão ter que vender o Partenon e nós vamos ter que vender os Jerónimos e a Torre de Belém. Aos americanos, claro.

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