Chegámos. O meu colega trazia um tapete, um favor prestado a um angolano desenrascado. À passagem pela Alfândega, foi desviado do verde “Nada a declarar” para o vermelho. Eu segui em frente. Esperei um pouco no hall de saída, mas apesar de ainda não serem 6 horas, estava demasiado calor e demasiada humidade. Saí para o ar livre. Livre é força de expressão, pois apesar de estarmos na estação seca, o ar estava húmido. E o céu coberto de nuvens. Um cigarro e uma mirada de reconhecimento. Daí nada uma oferta de taxi. Mas nada insistente, bem diferente dos habituais modos árabes. Mais adiante, quatro chineses confraternizavam. Um deles falava frequentemente ao telemóvel. Cantonês. E fumavam. Soube depois que a China emprestou uma pipa de massa a Angola, a troco de encomendas de trabalhos de construção e obras públicas.
Vários cigarros depois, o meu colega emergiu da sala da alfândega, com o tapete e sem ter pago direitos de importação. Depois começou a rábula da carrinha que me vinha buscar: onde está, por onde anda: mais de meia hora até se acertar tudo. Contou-me depois o motorista que, quando encostou para me recolher, veio logo um polícia ter com ele, que ali era proibido estacionar, que queria 1000 kuanzas, mas que tinha ficado satisfeito com 500 kuanzas (1 kuanza é cerca de um cêntimo).
Luanda, por fim.
Primeira observação – poeira. Faz-me lembrar Casablanca.
Segunda observação – prédios degradados.
Terceira observação – a arquitectura é indubitavelmente portuguesa.
Uma nota de rodapé: em Luanda a poeira é vermelha. Ao longo dos dias, acentua-se a impressão da arquitectura portuguesa (anos 60 e 70), mas vou reparando que afinal há muitas casas e prédios recuperados; nem todos têm os estores a cair.
Traffic Jam
O puto tem medo dos polícias. Se vêem que somos brancos, inventam um traço contínuo só para pedir 1000 kuanzas. O puto tem medo dos carros grandes. Aqui é a lei do mais forte; se um jipe é maior que o teu carro não te deixa entrar. O puto tem medo dos angolanos. Eles aqui não respeitam as regras. Quem tem medo compra um cão. Nada disto é verdade, claro.
Se ele tem um carro alugado parado, então fico eu com o carro. E fiquei. Arranjei uma planta da cidade e decorei um ou dois caminhos; é quanto basta. Com um carro só para mim, escuso de andar sempre com ar condicionado ligado. Entro no carro e abro o vidro. O pior é fechá-lo. Dormiu no parque de estacionamento do hotel, com o vidro em baixo. No dia seguinte, o rent-a-car trocou o Toyota City por um Susuki Jimmy. Um jipe pequeno, cujo único defeito é o ponto de embraiagem – para o encontrar, é preciso recuar o pé até o calcanhar ficar no ar. Faz-me lembrar o meu velho Fiat 124, o carro em que aprendi a conduzir. Como costumava dizer, depois de conduzir aquele carro, conduzo qualquer um. E é verdade.
Como o puto informou, chegam a Angola – ou seja, a Luanda – 11.000 carros todos os meses. Há uma enorme quantidade de jipes e carrinhas tipo Toyota Hiace (ler iásse). As carrinhas são o substituto das carreiras de autocarro – que não há. São conhecidos por cadongueiros. Os cadongueiros são azuis (entre o azul marinho e o azul celeste), com o tejadilho branco. A candonga está no número de passageiros que levam – já foram contados 20 passageiros num carro só. Os motoristas aprenderem a conduzir com os taxistas de Lisboa. O sonho de todos os angolanos é ter um jipe, não só por causa das ruas sem pavimento, como também por causa dos encostos dos candongueiros.
Os Acidentes
Há muito poucos acidentes em Luanda. Ainda bem porque eles não têm seguro. Quando peguei no carro, deram-me uma recomendação: não atropelar peões. A esta recomendação, juntei duas outras: se bater, telefonar logo para alguém da organização e se estiver perdido também.
Há poucos acidentes porque a velocidade média do trânsito é cerca de 5 Kms por hora, ou menos quando está mesmo mau. Onde há um buraco, mete o carro. se pode dar um golpe na bicha, dá o golpe. Mas não abusa. Evita bloquear os cruzamentos, e muito cuidado nas rotundas. De resto, ultrapassa pela esquerda, pela direita, por cima ou por baixo. Geralmente é mais rápido ir a pé. Mas o calor húmido e o peso do portátil desaconselham.
Onde é que há acidentes? Na marginal e na Ilha de Luanda. A Ilha de Luanda é uma restinga e que se estende ao longo da cidade. Do lado direito da estrada (do lado do mar) há discotecas. Estou a falar de estabelecimentos grandes, com parte interior (para ter ar condicionado) e esplanada coberta. São restaurantes que depois da hora do jantar têm um DJ a animar. Na marginal e na ilha o pavimento é bom, a estrada é a direito e há pouco trânsito; daí a velocidade, daí os acidentes.
Junho 2007
sexta-feira, 15 de junho de 2007
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