segunda-feira, 30 de julho de 2007

Crónicas de Angola 3 - Quanto custa um maço de cigarros?

Pergunta complicada. Em primeiro lugar, é importante referir que os angolanos fumam pouco, muito pouco. As lojas que vendem cigarros são muito, muito poucas. Em segundo lugar, diga-se que os maços de cigarros não têm o preço marcado. Assim, cada um vende ao preço que quer. Na tabacaria do hotel, pedem 200 kuanzas por um maço de AC, na esquina ao pé do escritório vendem o mesmo maço por 100 kuanzas, mas no quiosque ao pé da Rádio Nacional de Angola o preço é apenas 50 kuanzas, enquanto que à porta da fábrica custa só 35 kuanzas. (Nota – 1 kuanza é 1 cêntimo de Euro.)

Os angolanos podem fumar pouco, mas entre os poucos que fumam, há formas bué [em kimbundo quer dizer muito] estranhas de fumar. Estava eu muito quentinho à espera de andar mais 40 cm na bicha quando vejo passar uma “mãe” [expressão respeitosa que se usa para falar com mulheres de idade] vestida da forma tradicional, com um cigarro na boca. “Olha! Aquela tem o cigarro ao contrário! Tem a ponta dentro da boca e o filtro é que está para fora.” O carro andou mais 3 metros e verifiquei que a “mãe” estava parada a falar com outro transeunte. É então que ela tira o cigarro da boca e que vejo que o cigarro está aceso! Eu faço um desenho: a senhora tinha a boca fechada, com a ponta acesa lá dentro!

Na rua também se vendem cigarros avulso: 10 kuanzas cada um. Nas bancas de rua vendem-se cigarros, fruta e pão. Depois há os vendedores das filas de trânsito. Vendem cigarros, sapatos, carregadores de telemóvel, pacotes de bolachas, chaves de parafusos, resistências para ferver a água, máquinas de barbear, pilhas, telemóveis, sumos engarrafados, volantes desportivos, calculadoras, alicates. Isto tudo sem sair do carro, enquanto esperamos que a fila ande 5 metros. E lá vai o vendedor a correr atrás do sapato que ficou a ser avaliado (leia-se experimentado) pelo condutor. No Huambo, até vi fatos completos à venda na rua. O vendedor tinha dois cabides com um fato cada – um pendurado para a frente e outro para as costas. E percorria as ruas oferecendo a mercadoria aos transeuntes mais distintos.

Que tipo de coisas se vendem na rua? Durante as minhas longas horas passadas em filas de trânsito, tentei encontrar resposta a essa pergunta e devo dizer que não é fácil. Tentei então descobrir o que não se vende na rua. Foi aí que descobri que a primeira resposta era difícil. Depois de ver o Código do Trabalho e o Código Civil nas mãos de vendedores de semáforo vermelho, tive a certeza que não havia qualquer regra. De qualquer forma, há os produtos mais frequentes: CDs de música, acessórios para o carros, fruta e bebidas frescas durante a manhã, pão ao fim da tarde, ferramentas diversas, telemóveis e respectivos acessórios, sapatos, brinquedos na altura do Natal, e por fim o invulgar (os tais códigos), que é tudo o que nos faz soltar uma gargalhada.

Onde se vende? Onde há filas garantidas todos os dias, onde os carros andam devagar. De manhã não está ninguém a vender num determinado cruzamento, mas a partir do meio da tarde, é vê-los a espremerem-se entre a filas de carros. Tenho aprendido a fugir dos vendedores, que é como quem diz, a fugir das filas garantidas. Quando apanho fila, é fila imprevista, território livre de vendedores.

Porque se vende tanto nas ruas? Porque se compra. Supostamente, comprar na rua é mais barato que comprar nas lojas. Será mesmo mais barato? Será mercadoria roubada dos contentores no porto? Engraxar sapatos é que é decididamente barato: 20 kuanzas em Benguela e 30 em Luanda.

O que se come em Angola?

Em Angola come-se comida portuguesa. A classe média angolana come mais comida portuguesa que a classe média portuguesa. Além da comida portuguesa come-se a famosa moamba, kalulu e funje. A moamba não sei como é feita, mas não faltam restaurantes em Lisboa em que pode provar este prato. O kalulu é normalmente feito de peixe seco, mas também se faz com carne seca; mais pormenores não posso adiantar. O funje é feito de farinha de mandioca. Mas também se faz funje de milho. No sul, chamam pirão ao funje. Estamos a falar de papas, feitas apenas com farinha e água. Não sabem a nada, mas têm a consistência necessária para agarrarem ao garfo. Damos uma garfada na papa e passamos a papa pelo molho. Funje sem mais nada é como comer pão com água. Mas o pão é menos enjoativo.

No Natal come-se bacalhau na ceia do dia 24, mas no dia 25 come-se cabrito e leitão. Claro está que há quem prefira o funje ao bacalhau.

Julho 2007

domingo, 1 de julho de 2007

Crónicas de Angola 2 - O clima e a guerra

Não é possível perceber nada desta terra se nos esquecermos do clima e da guerra com a UNITA.

Durante 9 meses por ano o céu está permanentemente coberto de nuvens, o ar tem uma humidade relativa a rondar os 100%, e a temperatura ronda os 30 graus – vive-se no ar condicionado. Quando chove... quer dizer, está sempre a chover. Quando chove mesmo muito, há áreas da cidade que ficam alagadas, mercê do incipiente ou destruído sistema de esgotos. Estamos a falar de cerca de um metro de água em frente à entrada do meu hotel, estamos a falar de Angola ficar sem internet.

A guerra durou cerca de 25 anos e acabou há 5 anos. Os angolanos falam da 1ª e da 2ª guerra. O que separa as duas guerras são os acordos de Bicesse, as eleições que o Savimbi perdeu e se recusou a aceitar.

A guerra absorvia os recursos humanos e financeiros do país, absorvia as atenções, as preocupações e as energias dos governantes. As condutas de águas partiam-se e a água não era potável. As condutas de esgotos abateram, partiram-se, entupiram. Há prédios com os esgotos a correr a céu aberto. Fora da estação das chuvas, quando há água a escorrer nas ruas de Luanda, não é água, é esgoto.

A estradas foram-se esburacando. Quando chove, um buraco aberto no asfalto transforma-se num buracão. Com o passar dos anos, os buracões transformam-se em valas, e as valas cobrem toda a estrada.

O kota [em kimbundo quer dizer “mais velho”, expressão respeitosa conforme à tradição social africana.] fez (quase) todas as estradas de Angola, no tempo em que se podia andar por estrada. Estamos a falar dos anos 70, até cerca de 1977. Há cerca de 30 anos que o principal meio de transporte de pessoas é o avião. Os luandenses deixaram de ir passar o fim de semana a Benguela.

Lentamento, o país começa a reorganizar-se e a fazer a “reabilitação”. Há duas categorias de infraestruturas: as que já estão reabilitadas e as que ainda não estão reabilitadas. O GRN é o Gabinete para a Reconstrução Nacional e trata de aspectos tão diversos como esgotos, rede eléctrica, abastecimento de água, estradas, portos, aeroportos, caminhos de ferro, mas também da formação profissional.

No centro de Luanda e numa extensa área à volta do centro, as ruas não têm buracos (ou têm poucos buracos). Em Benguela, há muito poucas ruas asfaltadas. No Lubango, estão quase todas asfaltadas e há poucos buracos, ao passo que o Huambo está numa situação intermédia. Cabinda parece uma enorme aldeia, com ruas sem asfalto ou com o asfalto ratado nas bermas.

Durante anos o lixo foi um problema gravíssimo em Luanda. Ainda há 3 anos, as ruas estavam cheias de lixo. Actualmente, o problema é a fila que se forma atrás do camião do lixo. Há contentores grandes e contentores individuais para todo o prédio, tal como em Lisboa. Mas a administração municipal não se preocupa só com a recolha do lixo. Todas as manhãs há um regimento de varredores com máscaras – por causa da poeira – que varre as ruas e avenidas. Além disso, há um batalhão de jardineiros que rega os canteiros da cidade e planta relva ou arbustos. Os angolanos decidiram saltar uma etapa. Em vez de construirem um sistema municipal que não iria funcionar, contrataram várias empresas privadas a quem atribuíram diferentes áreas da cidade. Num bairro, os varredores têm fatos de macaco amarelos e usam máscaras sobre a boca e o nariz (por causa da poeira), ao passo que no bairro ao lado já usam uniforme verde ou vermelho e não têm máscaras.

Também o estacionamento é um problema no centro da cidade. Parte-se o passeio e criam-se lugares para estacionar em espinha. De caminho, reabilita-se o passeio. As obras são mais lentas que seriam em Lisboa: em vez de uma semana, demoram duas ou três. Mas houve uma máquina que avariou. Uma mini retro-escavadora de lagartas, partiu uma lagarta de borracha. Só pode ser usada a outra máquina. Retirar a máquina avariada é um problema. Encomendaram a largarta nova e estão à espera que chegue para a montarem e pôr a máquina a trabalhar. Porque não levam a máquina avariada para o estaleiro é para mim um mistério. Sobretudo porque atrapalha a obra e entope o trânsito.

Outro problema gritante é a falta de equipamentos em Angola. Por um lado as necessidades de máquinas para a construção civil e obras públicas são imensas, devido ao enorme esforço de reabilitação. Por outro lado, o transporte dos equipamentos é caro e demorado. Ter um equipamento parado dentro do navio, à espera de vez para desembarcar é caro. Por isso, as empresas do sector só trazem os equipamentos estritamente indispensáveis. Além do mais, a fé na estabilidade do país é ainda reduzida. Em caso de confrontos, é fácil evacuar pessoas; mas o equipamento tem que ficar para trás.

A rede elétrica é débil, muito débil. Outro dia vi a luz a faltar 5 vezes em três horas. Numa das vezes, eu estava dentro do elevador. O gerador do hotel demora 30 segundos a entrar em funcionamento. É uma sensação engraçada: primeiro fiquei sózinho às escuras no elevador, depois voltou a luz e senti o elevador a escorregar suavemente. Ao fim de uma ou duas eternidades, recomeçou a subir e deixou-me no piso certo.

Julho 2007