“Isto aqui houve várias fases... Houve a fase da guerra nas matas, houve a fase da paz e das eleições. A UNITA voltou para Luanda e havia muitos partidos. Depois das eleições houve novamente guerra. A UNITA refugiou-se no Huambo e cercou o Huambo durante 45 dias. Então os aviões do governo levavam comida para o Huambo. Morreu muita gente no cerco e havia muitos órfãos. Os aviões do governo descarregavam a comida e carregavam os meninos. Quando chegavam a Luanda, descarregavam os meninos do avião, assim! Então eles tinham que arranjar maneira de sobreviver. E eram esses meninos que lavavam os carros e que vendiam na rua. Mas isso já foi há 15 anos. Agora esses meninos já têm quase 30 anos. Agora não é preciso. Agora se quiserem podem arranjar emprego.”
Foi assim que o marinheiro kota me explicou quem eram os meninos do Huambo, enquanto pilotava o barco que me levava às 10 da noite do embarcadouro para o Mussulo. Nessa noite, para poder falar comigo, abdicou da travessia em alta velocidade. E continuou.
“É como o MPLA, também tem várias fases. Tem a fase do MPLA bonzinho que dava tudo de graça para o povo, tem a fase do socialismo, a fase do ... ".
As eleições são já em 2008. O resultado eleitoral é uma incógnita. Mas sem um líder da oposição, o verdadeiro adversário do MPLA é a abstenção.
Um dos problemas mais graves é a falta de electricidade. Há quem nunca tenha electricidade durante 3 semanas seguidas, mas a factura aparece no fim do mês como se nada fosse. Há comissões de moradores que juntam dinheiro para comprar um PT (Posto de Transformação), mas nem por isso esses moradores têm redução na factura de electricidade ou sequer têm garantias de terem fornecimento regular de electricidade. As páginas dos jornais falam do assunto com regularidade e é tema recorrente de conversa. Por isso, muitos são os que admitem roubar a electricidade que consomem. Os geradores são muitíssimo comuns; não há família da classe média que não tenha gerador na sua vivenda, com capacidade para prover às necessidades dos pais, filhos e netos que nela habitam.
Outro dia, debatia-se o facto do resultado das eleições se decidir em Luanda ou nas províncias mais populosas, quando alguém comentou: “O resultado das eleições decide-se no Mussulo.” O Mussulo é uma ilha bem próximo de Luanda, fracamente povoada, onde a "nomenklatura" tem a segunda casa. Muitos negócios se têm fechado no Mussulo, com água pela cintura ou em frente a uma garrafa de verde e um prato de marisco.
Janeiro 2008
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