domingo, 1 de julho de 2007

Crónicas de Angola 2 - O clima e a guerra

Não é possível perceber nada desta terra se nos esquecermos do clima e da guerra com a UNITA.

Durante 9 meses por ano o céu está permanentemente coberto de nuvens, o ar tem uma humidade relativa a rondar os 100%, e a temperatura ronda os 30 graus – vive-se no ar condicionado. Quando chove... quer dizer, está sempre a chover. Quando chove mesmo muito, há áreas da cidade que ficam alagadas, mercê do incipiente ou destruído sistema de esgotos. Estamos a falar de cerca de um metro de água em frente à entrada do meu hotel, estamos a falar de Angola ficar sem internet.

A guerra durou cerca de 25 anos e acabou há 5 anos. Os angolanos falam da 1ª e da 2ª guerra. O que separa as duas guerras são os acordos de Bicesse, as eleições que o Savimbi perdeu e se recusou a aceitar.

A guerra absorvia os recursos humanos e financeiros do país, absorvia as atenções, as preocupações e as energias dos governantes. As condutas de águas partiam-se e a água não era potável. As condutas de esgotos abateram, partiram-se, entupiram. Há prédios com os esgotos a correr a céu aberto. Fora da estação das chuvas, quando há água a escorrer nas ruas de Luanda, não é água, é esgoto.

A estradas foram-se esburacando. Quando chove, um buraco aberto no asfalto transforma-se num buracão. Com o passar dos anos, os buracões transformam-se em valas, e as valas cobrem toda a estrada.

O kota [em kimbundo quer dizer “mais velho”, expressão respeitosa conforme à tradição social africana.] fez (quase) todas as estradas de Angola, no tempo em que se podia andar por estrada. Estamos a falar dos anos 70, até cerca de 1977. Há cerca de 30 anos que o principal meio de transporte de pessoas é o avião. Os luandenses deixaram de ir passar o fim de semana a Benguela.

Lentamento, o país começa a reorganizar-se e a fazer a “reabilitação”. Há duas categorias de infraestruturas: as que já estão reabilitadas e as que ainda não estão reabilitadas. O GRN é o Gabinete para a Reconstrução Nacional e trata de aspectos tão diversos como esgotos, rede eléctrica, abastecimento de água, estradas, portos, aeroportos, caminhos de ferro, mas também da formação profissional.

No centro de Luanda e numa extensa área à volta do centro, as ruas não têm buracos (ou têm poucos buracos). Em Benguela, há muito poucas ruas asfaltadas. No Lubango, estão quase todas asfaltadas e há poucos buracos, ao passo que o Huambo está numa situação intermédia. Cabinda parece uma enorme aldeia, com ruas sem asfalto ou com o asfalto ratado nas bermas.

Durante anos o lixo foi um problema gravíssimo em Luanda. Ainda há 3 anos, as ruas estavam cheias de lixo. Actualmente, o problema é a fila que se forma atrás do camião do lixo. Há contentores grandes e contentores individuais para todo o prédio, tal como em Lisboa. Mas a administração municipal não se preocupa só com a recolha do lixo. Todas as manhãs há um regimento de varredores com máscaras – por causa da poeira – que varre as ruas e avenidas. Além disso, há um batalhão de jardineiros que rega os canteiros da cidade e planta relva ou arbustos. Os angolanos decidiram saltar uma etapa. Em vez de construirem um sistema municipal que não iria funcionar, contrataram várias empresas privadas a quem atribuíram diferentes áreas da cidade. Num bairro, os varredores têm fatos de macaco amarelos e usam máscaras sobre a boca e o nariz (por causa da poeira), ao passo que no bairro ao lado já usam uniforme verde ou vermelho e não têm máscaras.

Também o estacionamento é um problema no centro da cidade. Parte-se o passeio e criam-se lugares para estacionar em espinha. De caminho, reabilita-se o passeio. As obras são mais lentas que seriam em Lisboa: em vez de uma semana, demoram duas ou três. Mas houve uma máquina que avariou. Uma mini retro-escavadora de lagartas, partiu uma lagarta de borracha. Só pode ser usada a outra máquina. Retirar a máquina avariada é um problema. Encomendaram a largarta nova e estão à espera que chegue para a montarem e pôr a máquina a trabalhar. Porque não levam a máquina avariada para o estaleiro é para mim um mistério. Sobretudo porque atrapalha a obra e entope o trânsito.

Outro problema gritante é a falta de equipamentos em Angola. Por um lado as necessidades de máquinas para a construção civil e obras públicas são imensas, devido ao enorme esforço de reabilitação. Por outro lado, o transporte dos equipamentos é caro e demorado. Ter um equipamento parado dentro do navio, à espera de vez para desembarcar é caro. Por isso, as empresas do sector só trazem os equipamentos estritamente indispensáveis. Além do mais, a fé na estabilidade do país é ainda reduzida. Em caso de confrontos, é fácil evacuar pessoas; mas o equipamento tem que ficar para trás.

A rede elétrica é débil, muito débil. Outro dia vi a luz a faltar 5 vezes em três horas. Numa das vezes, eu estava dentro do elevador. O gerador do hotel demora 30 segundos a entrar em funcionamento. É uma sensação engraçada: primeiro fiquei sózinho às escuras no elevador, depois voltou a luz e senti o elevador a escorregar suavemente. Ao fim de uma ou duas eternidades, recomeçou a subir e deixou-me no piso certo.

Julho 2007

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